Programação via blog

 

Cinema Olympia visto do terrace do Grande Hotel, em 1920

Nos anos 50 o Olympia manteve duas sessões “extras” de grande procura. Uma delas era aos sábados, às 17 h. chamada de “Vesperal Passatempo”. Consistia da exibição de filmes de curta metragem e de uma série (2 episódios) de um seriado de aventuras. Esta sessão era freqüentada especialmente pelos estudantes, que lotavam o salão acompanhando o programa com uma algazarra própria da juventude. O clima alegre procedia a julgar eventos paralelos, como a entrada de um tipo popular que se valia dessa popularidade e se deixava carregar pelos estudantes da entrada ao balcão que ficava no fim da sala.

A outra sessão acontecia diariamente, também às 17 h. Era a chamada “Última Chance”, com filmes que já haviam sido exibidos, tendo percorrido os cinemas dos bairros, e que voltavam  para atender a quem não os tivesse visto ou quisesse revê-los. Este programa estimulou comportamentos insuspeitados. Alguns filmes ganhavam tanta platéia na “última chance” que chegavam a reassumir o cartaz  nos horários normais. Exemplos marcantes foram “Romeu e Julieta” de Renato Castellani,com Laurence Harvey e Susan Shental, “O Semeador de Felicidade” de Gordon Douglas, único filme de longa-metragem interpretado pelo pianista Liberace, e “A Louca”, melodrama mexicano de Miguel Zacarias com a cantora Libertad Lamarque.

Os horários normais do Olympia, nesse tempo, eram de 15,00- 19,00 e 21,00 h  de 2ª a sábado. Nos domingos havia uma sessão às 9 h (muito concorrida com filmes que em sua maioria não eram destinados a publico infantil, quase sempre em pré-estréia) e programação continua a partir das 14,00 h (até às 21,00 h).

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O primeiro brasileiro a virar ator em Hollywood foi Synésio Mariano de Aguiar, cognominado Syn de Conde. O pai dele tinha mandado-o para a Suíça, estudar. Era de praxe nas abastadas famílias do “tempo da borracha” mendar os filhos estudar na Europa. Mas o rebelde Synésio tomou um navio para os Estados Unidos e fixou-se na Califórnia. Cuidadosamente deixou um colega encarregado de pegar a correspondência (e dinheiro) que chegava à Suíça e remetê-la para o novo endereço. As respostas faziam o trajeto inverso.

Um  dia, o velho Mariano de Aguiar encontrou um amigo que lhe disse, muito alegre, ter visto o jovem Syn no cinema Olympia. Mariano espantou-se:

“- Não é possível, o menino está em Berna, na Suíça”.  “- Não”, acrescentou o amigo:

“- Ele não estava na platéia: estava na tela”.

O pai, aflito, foi logo ao cinema. E viu o filho vestido de beduíno puxando um camelo em uma aventura do folclore árabe. Foi o fim da carreira do astro promissor que chegou a morar com o ídolo da época Rudolph Valentino.

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Apesar de ter sido edificado para a alta sociedade local, o Olympia, por distar apenas alguns metros da chamada “zona do meretrício”, recebia com assiduidade a visita de mulheres que se dedicavam à mais antiga profissão do mundo.

Quem ia ao cinema não eram, contudo, as prostitutas de baixa renda. Eram as também chamadas cortesãs, destacando-se um grupo que chamavam de “polacas”, talvez por serem muito brancas e se trajarem com um esmero exagerado. O problema é que muitos espectadores das “soirées” eram cavalheiros que freqüentavam as pensões da “zona”. Eles iam ao cinema com as suas esposas.eles de casacas e cartolas, elas de vestidos longos. As “polacas”, ao entrar no salão de projeção que sempre ficou do lado da tela, na frente de quem já estava sentado, não deixavam de acenar para os seus ilustres fregueses. E eles, disfarçando, usavam exemplares do “Olympia Jornal”, um tablóide que era distribuído na entrada com a programação e curiosidades a cargo do editor, o poeta Rocha Moreira, para cobrir o rosto. Mesmo assim, uma senhora perguntou ao seu marido “quem era aquela”. E ele, obviamente, respondeu perguntando: “-Aquela quem ?”

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Rocha Moreira inaugurou o colunismo social em Belém. No “Olympia Jornal” não só publicava noticias de cinema como versos dedicados às freqüentadoras. O comum era fazer analogia das meninas com as estrelas da tela, valendo Teda Bara, Gloria Swanson, Mary Pickford e outras divas do cinema mudo.

Um  dia Rocha quis exaltar a beleza de uma garota da vesperal (aqui se chamava assim, no sul era “matinê”) e escreveu que por causa dela o cavalo do cow-boy Tom Mix derrubou o dono (um mocinho famoso dos antigos faroestes). As colegas da menina entenderam mal (ou apelaram para a maldade da inveja) e começaram a fazer gozação: “- Só mesmo umcavalo para se apaixonar por ti...”

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O Olympia foi idealizado para levar o cinema à elite de Belém na época em que ainda se fazia sentir o fausto da borracha (a extração do látex da seringueira nativa, produzindo fortunas entre os industriais da época). Nesse tempo (1912) o cinema era uma diversão popular, e existiam perto de 20 espalhados pelos bairros da cidade, alguns nada mais do que barracões com telas improvisadas e bancos corridos.

No dia da inauguração do cinema “luxuoso” próximo do Largo da Pólvora, o programa foi de filmes com curta metragem. Os longas chegariam pouco depois e vinham em lotes por navio, algumas cópias compradas para correr a região. Nessa época exibia-se muito filme europeu, especialmente suecos, alemães e dinamaqueses.

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Foi no Olympia que se exibiu o primeiro filme sonoro chegado à Belém: “Alvorada do Amor”, opereta da Paramount Pictures com Maurice Chevalier e Jeanette MacDonald, dirigida por Ernst Lubitsch. Em novembro de 1930.

Uma das atrações foi a colocação da tela logo na entrada, com os espectadores passando pelas laterais.

No fim dos anos 30 a empresa Teixeira & Martins não suportou os encargos financeiros e vendeu o cinema, e outros que controlava, ao banqueiro Adalberto Marques. Criou-se a “Cia. Cinematográfica Paraense Ltda”. Uma firma de vida curta. Em 1946 Marques vendeu todos esses cinemas ao exibidor cearense Luís Severiano Ribeiro, já dono de salas em diversos Estados.

Em 1953 os estudantes de Belém encabeçaram piquete para a reforma do Olimpia, bastante deteriorado na época. Severiano Ribeiro respondeu comprando um terreno na Av, Nazaré e anunciando que ali construiria o Cinema S. Luís “o maior do norte do Brasil”. Mas não só o novo cinema ficou nisso como o Olimpia permaneceu maltratado. Só em 1960, depois de inaugurado nove meses antes o cinema Palácio, é que recebeu os requisitos de conforto como poltronas estofadas e ar condicionado.

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No correr dos anos pouco se fez pelo prédio e suas instalações. Durante o tempo em que gerenciou a empresa Ribeiro, o sr. Adalberto Augusto Affonso foi incansável pedindo recursos para mantê-lo digno de uma tradição. Hoje o cinema atravessava uma fase sem brilho, embora ainda atraísse os fãs. Depois da medida extrema de Ribeiro Neto, o prefeito Duciomar Costa resolveu atender aos apelos da sociedade que compareceu em massa à sessão de despedida, assinando um contrato com o proprietário da casa para mantê-la, por três anos, como espaço cultural.


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